Aos 17 anos, no IPO (Instituto Português de Oncologia) - Porto, uma equipa de médicos informou-me, de forma transparente, que tinha um Osteossarcoma - tumor maligno - no joelho direito, e que ia ser submetido a um tratamento de quimioterapia, no sentido de tentar eliminar as células malignas.
Tumor?! Quimioterapia?! Substantivos que desconhecia ou ignorava e que, de um momento para o outro, passavam a constar do vocabulário sobre o meu estado de saúde. Apreender o significado de cada um foi um processo deveras doloroso, com efeitos secundários devastadores para o meu organismo.
Passaram-se doze anos e, infelizmente, o cancro continua a ser uma das principais causas de morte, apesar de a constante investigação científica permitir um avanço significativo ao nível dos tratamentos, contribuindo para uma melhoria da qualidade de vida.
No passado dia 20 de Setembro, estive no programa da Rádio Vizela - "Gente da Minha Praça" - a falar sobre o projeto deste blog - "um sapato novo". Disponibilizo a emissão do programa na integra, para quem desejar ouvir.
Quis o destino que ontem à noite assistisse, sem que tal estivesse planeado, à estreia do programa "Portugueses Extraordinários", no canal 1 da RTP.
Foi como se tivesse adentrado o écran da TV e abraçado a imensidão daquele Ser Humano que se entrega e ama os outros da forma mais simples e pura possível.
Porque não há palavras que descrevam gestos desta dimensão. Obrigado Joaquim Sá!
"Uma coisa é nós estarmos na verdade, outra coisa é a verdade estar em nós."
O dia amanhece em posição fetal. Há fios de luz âmbar que timidamente entreabrem a escuridão. Sinto o escorrer lento do sangue ao peito aberto em ferida. Suspiro pelo calor dum abraço e logo recebo o abraço destas frias paredes caiadas de branco. Esta dor, a única companhia na solidão do meu quarto. É o grito silencioso ao sofrimento daqueles que amo a trespassar-me. Há uma voz que me sussurra: precisas ser forte, ser porto que abarca a dor dos outros no afago dum sorriso. E eu tento ser forte, como tento ser forte. Mas já sinto as lágrimas ao branco dos olhos, prestes a chover em catadupa. Ainda se a dor se esvaísse junto com elas. Mas não! Apenas sinto invadir-me a fragilidade, e desfaço-me em pedaços. Chega a hora de me levantar, recompor-me e sorrir. Há sempre quem espere o fio de luz que verte dum abrir de mãos.
"Esta música é sobre as crianças doentes internadas num hospital. Quando foi cantada pela primeira vez uma dessas crianças estava no palco e conta-se que os dois músicos choraram no final. Para os críticos musicais a letra desta música reflecte as dificuldades que as crianças/jovens com necessidades educativas especiais têm em concretizar os seus sonhos. Tim conquistou com o tema “Voar” os tops nacionais exibida também na série da TVI "S.O.S. Crianças" (Luís Filipe Malheiro)
Agradeço a uma pessoa deveras especial o acesso a esta mensagem sobre uma canção que ganha asas...
"Trabalho solidário realizado com portadores de deficiência, a fim de a sociedade ser menos discriminatória. Como sempre foi um trabalho super gratificante ver a felicidade deles de poderem trabalhar com a DDiArte."
O colectivo DDiArte, dupla de fotógrafos madeirenses (Diamantino Jesus e José Diogo), tem sido, nos anos mais recentes, premiado por diversas entidades e publicado em revistas internacionais de referência no domínio da fotografia. Além da qualidade e criatividade artística do seu portfolio, há que enaltecer a excelência deste trabalho solidário realizado para um calendário, onde os modelos fotográficos são portadores de deficiência.
Porque um simples gesto é capaz de transformar a sociedade que nos rodeia, de estabelecer pontes entre margens, de gerar sorrisos de felicidade.
"Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor."
(Madre Teresa de Calcutá)
Sonhar é cada vez mais raro, porque é preciso ter coragem para sonhar, para sorrir a cada amanhecer, entregando-nos de corpo e alma a esse grande desafio que é viver. E quando se acredita na força do amor, quando se respira o sentir que nos inunda e preenche, os sonhos vão-se construindo numa felicidade partilhada.
Porque só me sei sonhador, no querer viver o amor. "Imagine all the people living for today"
Há alguns dias, numa daquelas conversas onde se quer permanecer, foi evocado o filme Forrest Gump. Recordo-me de ter assistido à estreia do filme, no início da adolescência, projetado por uma daquelas máquinas de bobina, no salão polivalente do Instituto Silva Monteiro.
"Your boy is diferent!"
O que é ser diferente? Segundo a genética, cada ser humano é um indivíduo único, logo diferente de todos os seus semelhantes. Contudo, há uma tendência na humanidade em querer agrupar as pessoas segundo padrões estabelecidos, reprimindo o pensamento e liberdade própria de cada Homem. No entanto, existe outra tendência para a discriminação e zombaria quando surge alguém que não se encaixa no grupo dos ditos normais, revelando assim a violência tanto psicológica como física de que o dito ser humano é capaz.
Ser normal é deveras desinteressante! Porque gosto de ser diferente e de pessoas diferentes!
"É ridículo dizê-lo mas, mal o vi, o meu coração começou a bater de uma forma diferente, mais do que bater dir-se-ia que andava às voltas, parecia um animalzinho satisfeito, só fazia assim quando via o Ernesto. Sentei-me debaixo do carvalho, acariciei-o, encostei ao tronco as costas e a nuca. Quando era rapariga, na capa do caderno de Grego escrevi o seguinte: Gnoseiseauton. Aos pés do carvalho, aquela frase sepultada na memória veio-me de súbito à ideia. Conhece-te a ti mesmo. Ar, respiro." (in Vai Aonde Te Leva o Coração, SusannaTamaro)
'Conhece-te a ti mesmo' - Esse é o grande desafio colocado a cada Homem. Só conhecendo-nos a nós mesmos, podemos respirar, inspirar fundo, sentir a harmonia do nosso ser com a natureza que nos rodeia.
Como conseguimos descobrir-nos a nós mesmos, sentir esta harmonia plena?
Apenas o conseguimos quando encontramos a voz do nosso interior, a voz da nossa consciência. Para ouvir esta voz, precisamos de nos recolher em silêncio, de entrarmos em nós próprios, abstrair-nos do ruído que nos rodeia. De início pode parece assustador, pois o silêncio para muitos ainda é algo de demasiado misterioso, como um quebra-cabeças para ser desvendado por alguns gurus das denominadas ciências ocultas.
Mas tal como as árvores ficam completamente desnudas no Outono, criando raízes no solo, para se revestirem e florirem alegremente na Primavera, também cada um de nós precisa de se despir no silêncio, para conseguir encontrar a voz do interior, encontrando as respostas às mais complexas questões, descobrindo a verdadeira identidade.
Quando conseguirmos escutar esta voz, não tenhamos medo, mas sim coragem para interiorizar e aceitar essa voz, vivendo de acordo com a nossa verdadeira identidade, voando nas asas da nossa liberdade interior, no pulsar do nosso coração, pois só assim conseguiremos ser verdadeiramente Felizes.
"Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde te levar."
"Dafu, o menino peixe que encarnou num corpo de homem."
Um drama impressionante sobre o amor incondicional de um pai em estado terminal, devido a um cancro, que tenta ensinar ao filho autista os processos básicos do dia a dia, para que se consiga orientar sozinho, quando ele partir. O amor é capaz de fazer milagres.
Porque urge uma maior sensibilidade para compreendermos e aceitarmos os outros.
Determinou o destino que, há cerca de 12 anos, devido a um grave problema de saúde - cancro -, me fosse amputada a perna direita - para viver, disse-me a equipa médica do Instituto Português de Oncologia do Porto. E, de facto, escolhi viver!
Essa escolha implica a aceitação do eu no todo, com a consciência exata das limitações físicas que daí resultam, mas com a certeza de que há um universo sem barreiras, um desafio constante à superação das capacidades que o ser humano possui - que são imensas.
Quantas vezes gastamos o precioso tempo de viver na procura do parecer aos olhos dos outros, esquecendo o essencial - o ser, de dentro para fora.
Amputaram-me uma perna, não a capacidade de sorrir. Além de que há sempre um sapato que permanece novo!