sábado, 19 de maio de 2012

Le Havre



A essência nua do cinema. Um filme que é todo um poema!


Cansado da sua pouca sorte como escritor, Marcel Marx (André Wilms) deixa a sua vida para trás e parte com a mulher Arletty (Kati Outinen) para Le Havre, uma pequena cidade portuária da Normandia, França. Ali, num recomeço incomum, ele torna-se engraxador de sapatos, algo que faz alegremente e sem perder o optimismo nem a dignidade que lhe é característica. É então que conhece Idrissa (Blondin Miguel), uma criança africana refugiada, que planeia chegar a Londres, onde encontrará a família. Sem saber o que fazer àquela criança, decide levá-la consigo para casa e tornar-se seu protector. Porém, mesmo contra o cinismo da sociedade, dos problemas que acabam por surgir com a polícia e da doença que ameaça a vida de Arletty, ele não desiste da sua luta por um mundo melhor.
Realizado pela finlandês Aki Kaurismäki e estreado na última edição do festival de Cannes, onde foi aplaudido pelo público e pela crítica, "Le Havre" ganhou o Fipresci - Prémio da Crítica Internacional e o Prémio Louis Delluc, um dos mais prestigiantes galardões franceses. PÚBLICO

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Rostos"

A horizonte o sol despedia-se, derramando o laranja fogo ao azul céu. Na tenda da feira do livro, acontecia a conversa, no âmbito do projeto "EFaciler", entre a turma do 2º C (de nível secundário dos cursos EFA da Escola Secundária de Vizela) e o autor Helder Magalhães. Uma apresentação original e criativa desenvolvida, despida de formalidades, a cintilar ao lusco-fusco.
Aos professores Sónia Cunha (quiçá futura pivô) e Luís Vila, aos alunos César Silva, Daniela Sampaio, Zé Pedro Machado, Selma Lopes, António Cunha (e todos os outros) e a todos os presentes, quer na feira do livro, quer via rádio Vizela: fico-vos grato!


No ato de escrever percorro-me por dentro, como se o vermelho vivo a escorrer às veias fosse tinta ao aparo da caneta...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

"Ainda ontem" - Miguel Esteves Cardoso

A Alma em Casa

Voltámos para casa anteontem, nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade. 
Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: "Mas quem é o senhor?" 
Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela. 
Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem. 
Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!

Miguel Esteves Cardoso, in Público, 06.05.12

Deixa estar

 

Ontem passámos o primeiro dia inteiro em casa. Num estado de namoro, de não acreditar na nossa sorte ou no nosso azar - mas de aceitá-lo com muitos obrigados - dormimos e acordámos juntos, como não temos feito nos últimos dias.

Depois do pequeno-almoçamos com o chá chinês e as torradas alentejanas e os queijos franceses dos últimos tempos. Namorámos e portámo-nos como fugitivos, exultando por conseguirmos estar sozinhos, longe dos hospitais e dos hotéis onde nos separaram, para nosso bem.

Depois almoçámos onde sempre almoçamos, comendo o que nos apetecia - logo no lugar onde tinha previsto, na véspera, o professor João Lobo Antunes, que almoçaríamos. No mais do que maravilhoso Neptuno. Não fosse ele um perito da Praia das Maçãs e da relação amistosa entre o sistema nervoso central e o peixe, que é óptima.

O dia-a-dia é milagre, como a vida. Ter a Maria João só para mim e ser para a Maria João só para ela é o mais que se pode pedir: até aceitar é difícil. O meu amor na minha vida. E o amor dela por mim na vida dela. E estes dois amores nas nossas vidas: que maior amor, nas nossas vidas, pode haver?

A Maria João deixa cair uma coisa. Como eu estou sempre a deixar. A coisa cai e parte-se. Sem deixar qualquer ausência ou importância. Diz ela: "Deixa estar".
 
É isso mesmo: deixemos estar. Estar já é bom. É morrer e não estar que não são.

Só resta o que é bom. A última coisa a ir-se é a primeiro que veio.

O amor é a vida: é mais. A vida é menos.
Miguel Esteves Cardoso, in Público, 07.05.12


É tão real este sentir incondicional no Amor. E eu digo-te: obrigado, meu amor.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

"People help the People"

Ajudar é estender a mão àquele que está na iminência de cair, a (re)tomar a sua caminhada. Como se um pássaro ferido tombasse do seu voo e o ajudássemos a curar as feridas, para novamente fazer o seu voo livre, em de vez cair na tentação de o manter aprisionado numa gaiola...


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Iluminado. O Renascer


Um ano após a edição de "Iluminado. O renascer", e várias apresentações onde a mensagem foi passando e eu fui crescendo com aprendizagem feita na partilha com cada pessoa, desafio os leitores a escreverem sobre o livro. Escrever é como um rio solitário a fluir no seu leito, a abraçar margens, a desaguar...

Obrigado!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Conto: Para ti, Papá!


Desde que chegara da escola, ainda não tinha manifestado algum tipo de expressão que lhe era habitual. Dava a impressão de estar absorto, entre aquelas mãos delicadas de menino, em que os dedos mergulhavam nos cabelos escuros, num qualquer outro universo que não fosse o seu quarto com as paredes forradas em tom azul céu.

Na cozinha, a mãe preparava o jantar com o avental desajeitado e um sorriso nos lábios ao recordar o peculiar episódio que ocorrera naquela manhã de Inverno, em que um desconhecido lhe havia oferecido um lugar sentado no comboio e lhe murmurara que ela era um anjo caído do céu.

Assim que o jantar ficou pronto, dirigiu-se ao quarto do seu menino e estranhou o silêncio que se fazia sentir à medida que ia atravessando o corredor. Lentamente, a mão rodou a maçaneta da porta e o olhar quedou-se sobre a nuvem de apatia que envolvia o pequeno João. Aproximou-se do filho e sentou-se no chão, mesmo ao seu lado. Afagou-lhe ternamente os cabelos e, num tom de voz maternal, beijou-lhe a face.

- O que te preocupa João?

- Oh! Mamã o que faz o Papá?

Aquela pergunta, feita de forma tão pura e inocente, assim de surpresa, trespassou-lhe por completo o ventre e o peito, e aos olhos as lágrimas prontamente deslizaram como as águas cristalinas ao leito do rio. Após um breve momento que pareceu prolongar-se pela eternidade, inspirou bem profundo e, como se os ponteiros do tempo tivessem regressado ao passado, expirou um longo suspiro, em carne viva, apertando com toda a força que possuía o franzino corpo do seu filho contra o seu.



Raquel sabia que aquele momento aconteceria, e também sabia que chegaria de uma forma inesperada, como um trovão que irrompe o silêncio da noite. Engoliu o vazio em seco, enxugou o mar que lhe banhava a face e abraçou a pequena mão do filho à sua.

- Vem com a Mamã, João!

O pequeno João olhou a mãe em silêncio e seguiu-lhe os passos. Abandonaram o quarto, passaram o corredor e seguiram pela cozinha até chegarem ao pequeno jardim que habitava a frente da casa. Os olhares de ambos registaram a fotografia da lua cheia cor de laranja durante uma fracção de segundos que se eternizou no negrume do céu. Raquel agachou-se, envolveu o corpo de João com os seus braços e, em tom de confidência, sussurrou-lhe ao ouvido:

- O papá trabalha ali, na lua. Tenho a certeza que ele nos está a ver neste preciso momento e ficaria muito feliz se lhe oferecesses o teu sorriso.

Um sopro morno de vento afagou os cabelos escuros do João e à sua pequena boca nasceu um sorriso capaz de abarcar o infinito.

- Para ti, Papá! – disse com a sua voz ingénua de menino e foi abraçar a mãe.

Morreste-me de José Luís Peixoto



Foi o primeiro livro que li de José Luís Peixoto. Li-o na Fnac Santa Catarina, enquanto esperava pelo comboio, num final de tarde de sábado. Uma leitura vertiginosa. No final, dirigi-me à caixa, porque aquele livro pertencia-me agora.

Pai é para sempre!