terça-feira, 9 de outubro de 2012

Perder para se ganhar!

Ossur Total Knee 2000
"É difícil, da minha perspectiva actual, dizer se tomei a decisão certa em relação ao meu braço. Tendo em conta a funcionalidade limitada ao braço, a dor que senti e ainda sinto, e o que agora sei sobre o que condiciona a tomada de decisões, desconfio que não amputar o braço foi, numa análise de custo-benefício, um erro." (p. 254 O lado bom da irracionalidade, Dan Ariely)

Ouvir dos médicos a comunicação sobre a inevitabilidade da amputação da perna direita foi um choque. A sensação de perda é sempre um processo de difícil interiorização e aceitação, principalmente quando se trata de uma parte do nosso corpo, que até então julgamos imprescindível para uma plena vivência e felicidade. Naquele momento, o facto de ter sido alertado que, para viver teria de prescindir daquele membro, talvez tivesse sido a força luminosa que desbloqueou a resistência, levando à aceitação da perda do mesmo.
Alguns meses pós-cirurgia, numa consulta de Ortopedia, os médicos revelaram-me mais pormenorizadamente qual a solução inicial, caso a quimioterapia queimasse as células malignas. Consistia na remoção do osso e consequente colocação de platina, existindo o risco iminente de incidentes ou necessidade de substituição. Ou seja, haveria a possibilidade de ocorrer um número indeterminado de internamentos e cirurgias, interrompendo o rumo natural do dia a dia. 
Se já me sentia curado, ali senti a convicção plena de que a decisão tomada tinha sido a mais acertada, pois com o uso da prótese, não só tenho uma qualidade de vida excelente - algum acidente com a prótese, basta levá-la à oficina -, como sei da liberdade do ser feliz. 

Foi um perder para se ganhar!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

"A Escola é para vós!"




   (Serigrafia que me foi oferecida pela Profitecla - Guimarães)

Esta manhã o Sapato Novo calçou o Iluminado e rumou às instalações da Profitecla - Guimarães. Surpreendentemente, o auditório estava composto com mais de 100 pessoas, entre alunos, funcionários, formadores e elementos da direção, e, durante cerca de 90 minutos expus o meu testemunho de vida e tentei sensibilizar aqueles jovens para o desafio que é viver, sobretudo, na diferença. 
Senti a atenção e curiosidade nas expressões dos seus rostos, entreguei-me em cada palavra dita, em cada gesto, para que conseguissem captar as vibrações das emoções das minhas vivências e experiências.
No final, vários vieram ter comigo, demonstrando-me o afeto alegria dos seus sorrisos e no calor das suas saudações.
De referir ainda a oferta de uma extraordinária serigrafia. 

Muito obrigado. Bem hajam!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Amor-perfeito!



Há lugares que sempre co-habitaram a minha existência - lugares que sei estarem ali, lugares que visito mais ou menos vezes, consoante as circunstâncias. Um desses lugares-comuns é o monte de São Bento das Peras. Basta-me atravessar a soleira da porta, virar à direita e, logo ao terminar da parede da casa, eis-lo diante de mim, a ascender ao firmamento.

Desde sempre que me recordo de subir o monte, ora a pé, ora de carro, quer pelos carreiros lavrados entre os pinheiros e os eucaliptos, quer pelo asfalto das estradas.

Mas, há momentos do nosso ser, em que esses lugares-comuns, readquirem um novo significado, tomam o sentido com sentido. Desde os finais de 2011, o Santuário de São Bento das Peras elevou-se-nos na humilde simplicidade do existir e sentir os laços do destino desabotoarem-se, revelando-nos o abismo da beleza, aquela que não se questiona - aceita-se no beber da luz do silêncio.

Fazer esta magnânima descoberta na partilha do sentir amor, no abraço da plenitude, a cada oração, a cada regresso, a cada nova subida, é um permanecer sempre, como se leve intemporal sopro de brisa, como se um (e)terno (re)nascer a encarnar-se no desabotoar de um cravo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"O azul é o limite!"

Havia cerca de 15 anos, desde a última subida a pé ao monte de São Bento das Peras. Recordava os tempos da Catequese, com os passeios pelos carreiros do monte feitos em grupo sempre a subir, na rebeldia da infância/adolescência, nos avisos dos responsáveis, e a satisfação da chegada ao alto. Ontem, já o sol se havia deitado sobre a linha do horizonte e o céu era uma tela de azuis e laranjas, voltei a subir o monte, agora na incandescência íntima da tua voz do teu riso do teu silêncio. Chegado ao campo da bola, o rasgar de uma estrada de paralelo monte acima, a subir desalmadamente, sem lugar a paragens para recuperar o fôlego. A satisfação da chegada, junto da capelinha de São Bento, foi partilhada contigo, na cumplicidade que só nós dois sabemos e sentimos. O céu a coalhar de estrelas, os cravos vermelhos ao pé do altar e a paz da oração. Eis-nos, sempre.

sábado, 19 de maio de 2012

Le Havre



A essência nua do cinema. Um filme que é todo um poema!


Cansado da sua pouca sorte como escritor, Marcel Marx (André Wilms) deixa a sua vida para trás e parte com a mulher Arletty (Kati Outinen) para Le Havre, uma pequena cidade portuária da Normandia, França. Ali, num recomeço incomum, ele torna-se engraxador de sapatos, algo que faz alegremente e sem perder o optimismo nem a dignidade que lhe é característica. É então que conhece Idrissa (Blondin Miguel), uma criança africana refugiada, que planeia chegar a Londres, onde encontrará a família. Sem saber o que fazer àquela criança, decide levá-la consigo para casa e tornar-se seu protector. Porém, mesmo contra o cinismo da sociedade, dos problemas que acabam por surgir com a polícia e da doença que ameaça a vida de Arletty, ele não desiste da sua luta por um mundo melhor.
Realizado pela finlandês Aki Kaurismäki e estreado na última edição do festival de Cannes, onde foi aplaudido pelo público e pela crítica, "Le Havre" ganhou o Fipresci - Prémio da Crítica Internacional e o Prémio Louis Delluc, um dos mais prestigiantes galardões franceses. PÚBLICO

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Rostos"

A horizonte o sol despedia-se, derramando o laranja fogo ao azul céu. Na tenda da feira do livro, acontecia a conversa, no âmbito do projeto "EFaciler", entre a turma do 2º C (de nível secundário dos cursos EFA da Escola Secundária de Vizela) e o autor Helder Magalhães. Uma apresentação original e criativa desenvolvida, despida de formalidades, a cintilar ao lusco-fusco.
Aos professores Sónia Cunha (quiçá futura pivô) e Luís Vila, aos alunos César Silva, Daniela Sampaio, Zé Pedro Machado, Selma Lopes, António Cunha (e todos os outros) e a todos os presentes, quer na feira do livro, quer via rádio Vizela: fico-vos grato!


No ato de escrever percorro-me por dentro, como se o vermelho vivo a escorrer às veias fosse tinta ao aparo da caneta...

quarta-feira, 9 de maio de 2012

"Ainda ontem" - Miguel Esteves Cardoso

A Alma em Casa

Voltámos para casa anteontem, nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade. 
Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: "Mas quem é o senhor?" 
Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela. 
Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem. 
Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!

Miguel Esteves Cardoso, in Público, 06.05.12

Deixa estar

 

Ontem passámos o primeiro dia inteiro em casa. Num estado de namoro, de não acreditar na nossa sorte ou no nosso azar - mas de aceitá-lo com muitos obrigados - dormimos e acordámos juntos, como não temos feito nos últimos dias.

Depois do pequeno-almoçamos com o chá chinês e as torradas alentejanas e os queijos franceses dos últimos tempos. Namorámos e portámo-nos como fugitivos, exultando por conseguirmos estar sozinhos, longe dos hospitais e dos hotéis onde nos separaram, para nosso bem.

Depois almoçámos onde sempre almoçamos, comendo o que nos apetecia - logo no lugar onde tinha previsto, na véspera, o professor João Lobo Antunes, que almoçaríamos. No mais do que maravilhoso Neptuno. Não fosse ele um perito da Praia das Maçãs e da relação amistosa entre o sistema nervoso central e o peixe, que é óptima.

O dia-a-dia é milagre, como a vida. Ter a Maria João só para mim e ser para a Maria João só para ela é o mais que se pode pedir: até aceitar é difícil. O meu amor na minha vida. E o amor dela por mim na vida dela. E estes dois amores nas nossas vidas: que maior amor, nas nossas vidas, pode haver?

A Maria João deixa cair uma coisa. Como eu estou sempre a deixar. A coisa cai e parte-se. Sem deixar qualquer ausência ou importância. Diz ela: "Deixa estar".
 
É isso mesmo: deixemos estar. Estar já é bom. É morrer e não estar que não são.

Só resta o que é bom. A última coisa a ir-se é a primeiro que veio.

O amor é a vida: é mais. A vida é menos.
Miguel Esteves Cardoso, in Público, 07.05.12


É tão real este sentir incondicional no Amor. E eu digo-te: obrigado, meu amor.